ESTUDO:O JUSTO JUÍZO DE DEUS - UM ESTUDO NO LIVRO DO PROFETA AMÓS ( PARTE 1)



Introdução: O livro de Amós é um dos maiores tratados de justiça social e revela de forma eloquente a soberania de Deus na história das nações e das pessoas. Deus está assentado no Trono de glória e tem todas as coisas sob Seu controle. Estaremos estudando o livro de Amós e a atualidade de sua profecia para nós hoje, igreja e sociedade, Brasil e o mundo todo.

1. O PROFETA AMÓS

a) Amós significa “carregador de fardos” (do verbo ãmas, “erguer um fardo, carregar”). Ele era pastor de ovelhas e agricultor, da área rural, das montanhas de Tecoa, uma aldeia localizada nas regiões altas da Judeia. ao sul de Belém. Foi um dos lugares fortificados por Roboão para a proteção de Jerusalém (2Cr 11.6). Amós tinha absoluta convicção do seu chamado profético e teve coragem para proclamar uma mensagem hostil. Embora enfrentando os preconceitos, não se desviou do seu propósito. A certeza da vocação e de ter recebido uma palavra de Deus lhe deu firmeza nas provações e lutas.


2. A ÉPOCA EM QUE AMÓS PROFETIZOU

a) Foi no período mais próspero dos reinos do Norte e do Sul. Em Judá o rei Uzias fazia um longo governo de 52 anos, ou seja, de aproximadamente 790 até cerca de 740 a.C. e em Israel, o reino do Norte, Jeroboão II, por 41 anos, fazia o mais extenso e o mais bem sucedido governo de Israel, entre 793 a 753 a.C. Israel estava vivendo um tempo de paz nas fronteiras e prosperidade interna.
b) O texto de Amós dá uma data precisa à sua missão de pregação em Betel: “dois anos antes do terremoto” (1.1), isto é, aquele terremoto terrível na época de Uzias, que, séculos mais tarde, ainda não fora esquecido (Zc 14.5). O grande terremoto de Amós 1.1 foi evidentemente acompanhado de um eclipse solar, conforme está sugerido em Amós 8.8-10. Segundo os astrônomos, esse eclipse ocorreu em 15 de junho de 763 a.C. A profecia sobre Israel foi proferida dois anos antes, em 765, e escrita algum tempo depois do terremoto. Este foi tão violento que Zacarias se referiu a ele 270 anos mais tarde (Zc 14.5).

3. A MENSAGEM PROFÉTICA DE AMÓS

a) A mensagem de Amós tem três pontos centrais:
• Primeiro, os privilégios implicam em perigo (3.2), pois quanto maior a luz, maior o risco. O povo de Deus não fica isento do julgamento;
• Segundo a história passada não pode substituir o compromisso moral e espiritual presente;
• Terceiro a profissão de fé e religiosidade são inválidas se não houver prática.
b) A profecia de Amós, também, é um exemplo da bondade de Deus para uma nação ímpia. Os israelitas do norte tinham rejeitado o pacto de Davi, mas ao mesmo tempo estavam confiantes de que, por serem escolhidos por Deus, nenhuma calamidade viria sobre eles. Para tal povo Deus enviou Amós e Oseias para adverti-los antes que a calamidade chegasse, chamando-os ao arrependimento e à obediência por causa do juízo de Deus.
c) Amós dirigiu-se ao povo que havia sido redimido do Egito (2.10; 3.11), cujos filhos se tornaram profetas e nazireus (2.11,12). Dirigiu uma palavra forte às mães e matronas que exigiam o melhor dos alimentos e mobiliário, com sacrifício dos pobres (4.1). De modo semelhante, fala aos pais que levavam seus filhos à flagrante idolatria (2.7b), aos fazendeiros (4.7-9; 5.16b, 17), aos soldados (5.3), aos juízes (5.7), aos homens de negócios (5.11; 8.4-6), aos adoradores (5.21-23), aos líderes de Samaria (6.1-7), a Amazias, o sacerdote em Betel (7.14-17), a homens e mulheres jovens (8.13). A última interpelação direta é a todo o povo de Deus (9.7).

d) Amós faz uma radiografia da sociedade israelita, denunciando os pecados do povo de Israel bem como das nações vizinhas. Uma por uma as nações circunvizinhas são chamadas à barra do tribunal de Deus, para responderem por suas atrocidades na guerra. Mas Israel é chamado a prestar contas das atrocidades do tempo de paz, que não são menos terríveis, e que são constantes em vez de ocasionais. A exploração do pobre e a libertinagem no culto foram pecados contra a luz que lhe fora dada. O Deus justo não pode ser enganado. Os homens não podem abafar o clamor dos oprimidos com o barulho dos hinos, nem comprar a Deus com ofertas cada mais volumosas (5.21-24).

e) Os profetas são contemporâneos de cada geração, porque a verdade que declaram é permanentemente válida. O que dizem tem a qualidade intemporal e o poder constrangedor da afirmação espiritual autêntica. Eles eram preocupados com as condições sociais e as questões públicas, como evidências de uma crise espiritual. Eles não falam de pecado e arrependimento em termos gerais, mas são específicos e perturbadores em suas denúncias. Os profetas não falam de nossa época, mas a ela, porque a Palavra de Deus está em sua boca. Eles sentem o urgente significado da História, como esfera das decisões morais do homem e da distintiva ação de Deus.

Ao fazermos um exame da profecia de Amós, precisamos contextualizá-la:

• A situação política
Dos dezenove reis dentre oito dinastias, nenhum desses reis andou com Deus. Jeroboão I numa estratégia política construiu novos templos, nomeou novos sacerdotes em Betel ao Sul e em Dã ao norte, a fim de que seus súditos não precisassem subir ao templo de Jerusalém. Esse rei fez da religião um instrumento político para alcançar seus propósitos sórdidos. Todos os demais reis que o sucederam andaram nesse mesmo caminho. Para fazer a adoração mais atraente nos santuários de Betel e Dã, Jeroboão I introduziu uma audaciosa e perigosa inovação. Ele “... fez dois bezerros de ouro; e disse ao povo: Basta de subirdes a Jerusalém; vês aqui teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir da terra do Egito! Pôs um em Betel, e outro em Dã” (2Rs 12.28,29).

• A situação econômica
Na época do profeta Amós, os ricos eram suficientemente ricos para possuírem diversas casas (3.15), para se interessarem por imóveis ostensivamente caros (6.4) e para não se privarem de qualquer satisfação física (3.12; 4.1; 6.6). Por outro lado, os pobres eram realmente pobres e explorados: eles sofriam extorsões imobiliárias (2.6,7), extorsões legais (5.10,12) e extorsões comerciais (8.5). O dinheiro e a ganância governavam tudo: os homens viviam para seus negócios (8.5), as mulheres para o prazer (4.1) e os governantes, para a frivolidade (6.1-6).

A riqueza era exorbitante, mas estava concentrada nas mãos de poucos. Os pobres eram injustiçados. A impiedade desemboca na perversão. O povo afastou-se de Deus, corrompeu-se moralmente a ponto de oprimir cruelmente os pobres e subornar os tribunais de justiça. Quando os israelitas usaram a riqueza adquirida por opressão e violência para subornar as instituições incumbidas de defender os direitos dos fracos contra a injustiça dos ricos e poderosos, a dignidade e o valor do homem justo foram reduzidos ao valor de um par de sandálias. A prosperidade econômica e a estabilidade política levaram à degeneração espiritual de Israel. Essa degeneração espiritual tomava a forma de injustiça social.

Muitos se enriqueceram por meio da violência e rapina; pela opressão dos pobres e necessitados (3.10). Credores sem remorso vendiam os pobres como escravos (2.6-8). Usavam balanças enganosas e vendiam aos pobres o refugo do trigo por um peso menor e por um preço maior. Os juízes aceitavam dinheiro dos ricos para tomarem decisões injustas nas contendas legais contra os pobres (5.12). As mulheres se mostravam tão duras e tão gananciosas e cruéis como os homens. Exigiam dos maridos que oprimissem os pobres e os necessitados para adquirirem os meios de satisfazer a sua vontade (4.1).

Não havia restrição para a prática da injustiça (8.5). Desprezavam os mais nobres sentimentos humanos (2.8). Não toleravam ser repreendidos (5.10). Na busca insaciável da riqueza os ricos se mostravam insensíveis à ruína do país (6.6). Ufanavam-se de seu poder e autoridade e ficavam sossegados sem pensar na possibilidade do julgamento vindouro (6.1,13). Mostravam-se maduros para o castigo da justiça divina (8.1-3).

• A situação moral
Nenhum profeta clamou contra a injustiça com mais eloquência do que Amós. Ritual sem justiça não é religião divina, mas um perigoso desvio do caráter. Qualquer nação que violar os conceitos morais e sociais divinos e entregar-se à exploração do pobre está fadada à prematura destruição (1.5,8, 10, 12,15; 2.3,5 14-16). Israel corrompeu-se em extremo. Os sacerdotes adulteravam dentro do templo. As mulheres estavam vivendo de forma fútil, em festas e bebedeiras. Os juízes amordaçavam a voz da consciência e vendiam sentenças para arrebatar o direito dos justos. Os ricos viviam nababescamente, dormindo em camas de marfim, bebendo vinhos caros ao som de música, tramando em seus leitos planos para saquearem os pobres, enquanto estes lutavam desesperadamente para sobreviver.

• A situação espiritual
O sistema de adoração do bezerro de ouro, instituído no reino de Israel, já durava 170 anos. Embora a adoração de Baal tivesse sido expurgada da terra por Jeú em 841 a.C., a adoração do bezerro continuava por óbvias razões políticas. Moralmente, a nação estava corrompida. Profetas e sacerdotes viviam a serviço dos seus próprios interesses. Em tudo a nação era pagã, com exceção do nome.

Amós retrata a decadência da religião em Israel. Havia muitas celebrações e abundante música, mas aquela pomposa liturgia não agradava a Deus. Eles iam ao templo apenas para multiplicarem seus pecados. Eram hedonistas e narcisistas. O templo em vez de ser um lugar de adoração e proclamação da Palavra era um palanque de bajulação ao rei, uma plataforma que servia aos interesses políticos vigentes. Israel pensou que Deus pudesse ser subornado e comprado com rituais e chegou a acreditar que Deus estava do lado deles mesmo na prática de seus pecados mais horrendos.

Israel, nesta época, era muito religioso, mas sua religiosidade divorciada da verdade foi uma indicação do fracasso de sua fé. O povo se ufanava de seus cultos elaborados, das suas ofertas, dízimos e sacrifícios que apresentava assiduamente ao seu Deus; e especialmente das festas suntuosas que celebrava em o nome do Senhor. Israel estava equivocado acerca do caráter de Deus. Eles pensavam que enquanto o Senhor recebia ofertas e adoração do seu povo, ele não se incomodava pela vida que levavam. A maravilhosa prosperidade era para eles, prova cabal das bênçãos e favores do seu Deus. O povo chegou a desejar, até mesmo naquele estado de apostasia o Dia do Senhor.

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